cristianismo

Cristianismo primitivo

A etapa da história do cristianismo de aproximadamente três séculos (I, II, III e parte do IV), que se inicia após a Ressurreição de Jesus (33 d.C.) e termina em 325 com a celebração do Primeiro Concílio de Niceia. É tipicamente dividido em Era Apostólica e o Período Ante-Niceno (desde a Era Apostólica até Niceia). A mensagem inicial do Evangelho foi espalhada oralmente, provavelmente em aramaico. Os livros do Novo Testamento Atos dos Apóstolos e Epístola aos Gálatas registam que a primeira comunidade da igreja cristã foi centrada em Jerusalém e tinha entre seus líderes Pedro, Tiago, João, e os apóstolos.

Os primeiros cristãos, como descrito nos primeiros capítulos dos Atos dos Apóstolos, ou eram judeus ou eram gentios convertidos ao judaísmo, conhecidos pelos historiadores como judeus-cristãos. Tradicionalmente, o Cornélio, o Centurião, é considerado o primeiro gentio convertido. Paulo de Tarso, depois de sua conversão ao cristianismo, reivindicou o título de Apóstolo dos Gentios. A influência de Paulo no pensamento cristão se diz ser mais significativa do que qualquer outro autor do Novo Testamento. Até ao final do século I, o cristianismo começou a ser reconhecido interna e externamente como uma religião separada do judaísmo rabínico. Foi nesse período que o cânon do Novo Testamento foi desenvolvido, com as cartas de Paulo, os quatro evangelhos, e várias outras obras dos seguidores de Jesus que também foram reconhecidas como Escrituras Sagradas.

Primeiro Concílio de Niceia

O Primeiro Concílio de Niceia foi o primeiro concílio ecumênico da Igreja. Seus feitos resultaram em um dos primeiros símbolos da fé e doutrina cristã, chamado de Credo Niceno. Eels reuniram-se na cidade de Niceia da Bitínia (atual İznik, província de Bursa, Turquia) pelo Imperador Romano Constantino I em 325. Constantino I organizou o concílio nos moldes do senado romano e o presidiu, mas não votou oficialmente as Questões de fé.

Este concílio ecumênico foi a primeira tentativa de alcançar um consenso na Igreja através de uma assembleia representando toda a cristandade. Ósio, bispo de Córdoba, provavelmente um legado papal, pode ter presidido suas deliberações.

Seus principais feitos foram a resolução da questão cristológica da natureza divina de Jesus e sua relação com Deus Pai; a construção da primeira parte do Credo Niceno; a fixação da data da Páscoa e a promulgação da lei canônica em sua primeira forma.

Consolidação da Igreja

O rei Tiridates III fez do cristianismo a religião oficial na Armênia entre os anos 301 e 314, que se tornou o primeiro Estado oficialmente cristão. Essa religião não era inteiramente nova na Armênia, tendo penetrado no país pelo menos desde o século III, mas pode ter estado presente ainda antes na região.

Constantino I foi exposto ao cristianismo em sua juventude e, ao longo de sua vida, seu apoio à religião cresceu, culminando no batismo em seu leito de morte. Durante seu reinado, a perseguição aos cristãos sancionada pelo Estado terminou com o Édito de Tolerância de Galério no ano 311 e o Édito de Milão em 313. Nesse ponto, o cristianismo ainda era uma crença minoritária, compreendendo talvez apenas cinco por cento da população romana. Influenciado por seu conselheiro Mardônio, o sobrinho de Constantino, Juliano, tentou, sem sucesso, suprimir o cristianismo. Em 27 de fevereiro de 380, Teodósio I, Graciano e Valentiniano II estabeleceram o cristianismo niceno como a Igreja Estatal do Império Romano. Assim que se ligou ao Estado, o cristianismo enriqueceu; a Igreja solicitava doações dos ricos e agora podia possuir terras.

Em termos de prosperidade e vida cultural, o Império Bizantino foi um dos picos da história cristã e da civilização cristã, e Constantinopla permaneceu como a cidade líder do mundo cristão em tamanho, riqueza e cultura. Houve um interesse renovado na filosofia grega clássica, bem como um aumento na produção literária em grego vernacular. A arte e a literatura bizantina ocupavam um lugar de destaque na Europa e o impacto cultural da arte bizantina no mundo ocidental durante esse período foi enorme e de significado duradouro. A ascensão posterior do Islã no norte da África reduziu o tamanho e o número de congregações cristãs, deixando em grande número apenas a Igreja Copta no Egito, a Igreja Ortodoxa Etíope no Chifre da África e a Igreja Núbia no Sudão (Nobácia, Macúria e Alódia).

Idade média

Com o declínio e queda do Império Romano do Ocidente, o papado tornou-se um ator político, visível pela primeira vez nas negociações diplomáticas do Papa Leão I com hunos e vândalos. A Igreja também entrou em um longo período de atividade missionária e expansão entre as várias tribos. Enquanto os arianistas instituíam a pena de morte para os pagãos praticantes, o que mais tarde se tornaria o catolicismo também se espalhou entre os húngaros, os germânicos, os celtas, os bálticos e alguns povos eslavos.

Por volta de 500, o cristianismo foi completamente integrado à cultura bizantina e do Reino Ostrogótico e Bento de Núrsia estabeleceu sua regra monástica, criando um sistema de regulamentos para a fundação e administração de mosteiros. O monaquismo tornou-se uma força poderosa em toda a Europa e deu origem a muitos dos primeiros centros de aprendizagem, mais notoriamente na Irlanda, Escócia e Gália, contribuindo para o Renascimento Carolíngio do século IX.

No século VII, os muçulmanos conquistaram a Síria (incluindo Jerusalém), o norte da África e a Espanha, convertendo parte da população cristã ao islamismo e colocando o restante sob um estatuto legal separado. Parte do sucesso dos muçulmanos foi devido à exaustão do Império Bizantino em suas décadas de conflito com a Pérsia. A partir do século VIII, com a ascensão dos líderes carolíngios, o papado buscou maior apoio político no Reino Franco.

A Idade Média trouxe grandes mudanças dentro da igreja. O Papa Gregório Magno reformou dramaticamente a estrutura e administração eclesiástica. No início do século VIII, a iconoclastia tornou-se uma questão polêmica, quando foi patrocinada pelos imperadores bizantinos. O Segundo Concílio de Niceia (787) finalmente se pronunciou a favor dos ícones religiosos. No início do século X, o monaquismo cristão ocidental foi ainda mais rejuvenescido pela liderança do grande mosteiro beneditino da Abadia de Cluny.

No Ocidente, a partir do século XI, algumas escolas catedrais mais antigas tornaram-se universidades (ver, por exemplo, Universidade de Oxford, Universidade de Paris e Universidade de Bolonha). Anteriormente, o ensino superior tinha sido o domínio das escolas catedrais ou escolas monásticas (Scholae monasticae) cristãs, lideradas por monges e freiras. Evidências de tais escolas datam do século VI. Essas novas universidades expandiram o currículo para incluir programas acadêmicos para clérigos, advogados, funcionários públicos e médicos. A universidade é geralmente considerada como uma instituição que tem sua origem no cenário cristão medieval.

Acompanhando o surgimento das “cidades novas” em toda a Europa, foram fundadas ordens mendicantes, trazendo a vida religiosa consagrada do mosteiro para o novo ambiente urbano. Os dois principais movimentos mendicantes foram os franciscanos e os dominicanos, fundados por Francisco de Assis e Domingos de Gusmão, respectivamente. Ambas as ordens fizeram contribuições significativas para o desenvolvimento das grandes universidades da Europa. Outra nova ordem foram os cistercienses, cujos grandes mosteiros isolados lideraram o assentamento de antigas áreas selvagens. Neste período, a construção de igrejas e a arquitetura eclesiástica atingiram novos patamares, culminando nas ordens de arquitetura românica e gótica e na construção das grandes catedrais europeias.

O nacionalismo cristão surgiu durante esta época em que os cristãos sentiram o impulso de recuperar terras nas quais o cristianismo havia florescido historicamente. Em 1095, sob o pontificado de Urbano II, as Cruzadas foram lançadas. Estas foram uma série de campanhas militares na Terra Santa e em outros lugares, iniciadas em resposta aos apelos do imperador bizantino Aleixo I Comneno contra a expansão turca. Um dos principais objetivos das Cruzadas era impedir a expansão dos estados muçulmanos e recuperar territórios que estavam sob controle cristão, particularmente a Terra Santa no Oriente Médio. As Cruzadas acabaram fracassando em abafar a agressão islâmica e até mesmo contribuiu para a inimizade cristã com o saque de Constantinopla durante a Quarta Cruzada.

Durante um período que se estende do século VII ao XIII, a igreja cristã passou por uma alienação gradual, resultando em um cisma que dividiu o cristianismo em um ramo chamado latino ou ocidental, a Igreja Católica Romana,[nota 4] e um ramo oriental, em grande parte grego, a Igreja Ortodoxa. Estas duas igrejas discordam sobre uma série de processos e questões administrativas, litúrgicas e doutrinais, principalmente a primazia da jurisdição papal. O Segundo Concílio de Lyon (1274) e o Concílio de Florença (1439) tentaram reunir as igrejas, mas em ambos os casos, os ortodoxos orientais se recusaram a implementar as decisões e as duas principais igrejas permanecem em cisma até os dias atuais. No entanto, a Igreja Católica Romana tem alcançado união com várias pequenas igrejas orientais.

No século XIII, uma nova ênfase no sofrimento de Jesus, exemplificada pela pregação dos franciscanos, teve como consequência voltar a atenção dos fiéis para os judeus, a quem os cristãos haviam colocado a culpa pela morte de Jesus. A tolerância limitada do cristianismo aos judeus não era nova — Agostinho de Hipona disse que os judeus não deveriam ter permissão para desfrutar da cidadania que os cristãos consideravam garantida — mas a crescente antipatia pelos judeus foi um fator que levou à expulsão dos judeus da Inglaterra em 1290, a primeira de muitas expulsões na Europa.

Começando por volta de 1184, após a cruzada contra a heresia dos cátaros, várias instituições, amplamente referidas como a Inquisição, foram estabelecidas com o objetivo de suprimir a heresia e assegurar a unidade religiosa e doutrinária dentro do cristianismo através da conversão e repressão.

Reforma protestante

O Renascimento do século XV trouxe um renovado interesse em estudos antigos e clássicos. Outra grande cisma, a Reforma, resultou na divisão da cristandade ocidental em várias denominações cristãs. Em 1517, Martinho Lutero protestou contra a venda de indulgências e logo passou a negar vários pontos-chave da doutrina católica romana. Outros, como Zwingli e Calvino ainda criticaram o ensino católico romano e adoração. Estes desafios desenvolveram no movimento chamado de protestantismo, que repudiou o primado do papa, o papel da Tradição, os sete sacramentos e outras doutrinas e práticas (ver: Cinco solas). A Reforma na Inglaterra começou em 1534, quando o Rei Henrique VIII tinha se declarado chefe da Igreja da Inglaterra. No início em 1536, os mosteiros por toda a Inglaterra, País de Gales e Irlanda foram dissolvidos.

Em parte como resposta à Reforma Protestante, a Igreja Católica Romana engajou-se em um processo significativo de reforma e renovação, conhecido como Contrarreforma ou Reforma Católica. O Concílio de Trento reafirmou e clarificou a doutrina católica romana. Durante os séculos seguintes, a concorrência entre o catolicismo romano e o protestantismo tornou-se profundamente envolvida com as lutas políticas entre os Estados europeus.

Enquanto isso, a descoberta da América por Cristóvão Colombo em 1492 provocou uma nova onda de atividade missionária. Em parte de zelo missionário, mas sob o impulso da expansão colonial pelas potências europeias, o cristianismo se espalhou para a América, Oceania, Ásia Oriental e África Subsaariana.

Em toda a Europa, as divisões causadas pela Reforma levou a surtos de violência religiosa e o estabelecimento de igrejas separadas do Estado na Europa Ocidental: o luteranismo em partes da Alemanha e na Escandinávia e o anglicanismo na Inglaterra em 1534. Em última instância, essas diferenças levaram à eclosão de conflitos em que a religião desempenhou um papel chave. A Guerra dos Trinta Anos, a Guerra Civil Inglesa e as Guerras religiosas na França são exemplos proeminentes. Estes eventos intensificaram o debate sobre a perseguição cristã e tolerância religiosa.

No renascimento do neoplatonismo, os humanistas renascentistas não rejeitaram o cristianismo; muito pelo contrário, muitas das maiores obras da Renascença foram dedicadas ao cristianismo e a Igreja Católica patrocinou muitas obras de arte renascentista. Grande parte, se não a maior parte, da nova arte foi encomendada ou dedicada à Igreja. Alguns estudiosos e historiadores atribuem ao cristianismo a contribuição para o surgimento da Revolução Científica. Muitas figuras históricas conhecidas que influenciaram a ciência ocidental se consideravam cristãs, como Nicolau Copérnico, Galileu Galilei, Johannes Kepler, Isaac Newton e Robert Boyle.